Coleção de livros lançada pelo GT Racismo encanta público na Academia Pernambucana de Letras

21/05/12

Desfazer mais um dos erros históricos praticado contra a população negra no Brasil e revelar a face da literatura afro-brasileira. Esses  foram alguns dos objetivos cumpridos pela obra “Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, lançada na noite da última quinta-feira (17), na Academia Pernambucana de Letras. A iniciativa do Grupo de Trabalho contra o Racismo (GT Racismo), do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), trouxe o pesquisador responsável pela obra, o professor Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Geral (UFMG) .

No encontro, o público presente pode conferir a apresentação do grupo afro “Boca Coletiva”. Sob a liderança do professor Lepê Correia, o grupo, composto de violino e violão, acompanhou os poemas musicados do mestre. “Vocês podem perguntar cadê os tambores africanos? Como pode ser música africana sem os tambores? Pois eu digo a vocês que o violino e o violão nasceram de um instrumento africano muito mais antigo, chamado ‘kora’, que era tocado pelos andarilhos que contavam as histórias”, explicou.

Em seguida, a coordenadora do GT Racismo, procuradora de Justiça Maria Bernadete Azevedo compôs a mesa de honra. A presidente da Academia, Fátima Quintas, coordenou os trabalhos da mesa que contou com a presença de Eduardo Duarte;  a diretora da Escola Superior do MPPE (ESMP), Aparecida Caetano; as  bibliotecárias do MPPE e da  Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Rosa Dalva e Adelaide Lima, respectivamente; e a escritora e representante do movimento negro Inaldete Pinheiro de Andrade.

A coordenadora do GT explicou por que se empenhou em trazer a obra para Pernambuco. “Por que o GT Racismo está empenhado em fazer a divulgação desse trabalho? Quando eu conheci a obra fiquei emocionada, impactada, porque eu nunca tinha visto um trabalho desse porte, dessa qualidade. Conheci mais uma parte da história negra que também não foi contada”, disse.  Para Fátima Quintas, realizar o lançamento da coleção na Academia Pernambucana de Letras representa mais do que troca de ideias e experiência, mas sim refazer uma parte da história do país. “Me surpreendo com o trabalho. Não há como negar a história. Negá-la é distorcer a realidade brasileira”, finalizou.

Eduardo Duarte explicou o que o motivou a trabalhar em um projeto como o da obra “Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica”. “O Brasil não tem um projeto unificador da literatura. Então pensamos em um projeto da literatura afro-brasileira, inspirados pelo GT Mulher e o Grupo Negrícia, que tem em sua patente a veia afro literária. Então, saímos em busca de uma escrita do seu ser negro”, explicou.

Em sua palestra, o professor mineiro ainda fez uma explanação das obras existentes na coleção, explicando por que o grupo de pesquisadores resolveu investigar o passado a se ateve a livros publicados individualmente e ao recorte que envolve romance, novela e conto. “Acho que o presente está muito bem representado, com obras de grande valor literário de autores negros. Nós temos uma produção ininterrupta. Mas faltava vasculhar o passado. Queríamos um projeto de literatura distinto do padrão dominante brasileiro. O recorte era necessário, porque catalogamos mais de 250 escritores e decidimos então nos ater aos romances, novelas e contos, ficando os autores coletivos, os ensaios e as poesias para outra oportunidade”, falou.

Eduardo Duarte encerrou a palestra explicando o teor dos quatro volumes da coleção: o primeiro deles trata dos escritores nascidos até 1930.  O segundo é a consolidação dos autores negros, o terceiro trata da produção a partir de 1950 e o quarto são os depoimentos dos autores importantes. “Durante a realização desse trabalho um dado nos incomodou: 96% dos personagens de romances contemporâneos, até 2004, são brancos. É esse Brasil da branquidade dominante que essa obra vem arranhar. Esse trabalho vem impactar esse domínio avassalador”, sentenciou.

A obra – A coleção é composta por quatro volumes e reúne uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre 100 escritores, dos tempos coloniais até hoje. O trabalho é fruto de pesquisa realizada em todas as regiões do país, com vistas ao mapeamento e estudo da literatura produzida pelos afrodescendentes. Integram o projeto 61 pesquisadores, vinculados a 21 instituições de ensino superior brasileiras e seis estrangeiras. O resultado revela a face afro da literatura brasileira, e ainda organiza a reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai dos clássicos, como Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa, aos contemporâneos: Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, passando por nomes importantes e esquecidos como Maria Firmina dos Reis e José do Nascimento Moraes.


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